Além de escrever um artigo com esse título (o que mais gosto e o menos comentado por todos), tive um blog por algumas semanas também com esse nome. Tem um pedaço meu que misturava xamanismo com música eletrônica. É mais um lado do eu-polígono. Eis o artigo:

O Cybermonge, A Arte e o
Nirvana Estruturado

Quando a dança mexe o corpo e a letra dói no olho. Quando o quadro pinta nuvens e a música grita. No céu aparecem lentes de aumento. As árvores assobiam. Os tambores agradecem os latidos. As marcas d’água molham as plantas. As pedras limpam as chagas. Os ácidos injetam. As meninas loucas.

Antes do fim da noite aparecem os helicópteros libélulas. Antes do fim da festa, enquanto os homens andam na avenida, surgem ventos por entre as múmias. Do outro lado, as crianças brincam em máquinas pequenas coloridas. Na selva aparecem cybermonges que gravam os cânticos. No continente velho, jovens dançam nas madrugadas frias. Sentem o coração, bebem água, olhos secos. Percebem coisas, conexões, redes, links, uma coisa só.

Dadá vive. Remodelado. Mais colorido. Cheio de bytes. Amarrado com cordas, cabos, madeiras, tomadas, modems. Dadá morreu. Hiper-conectado. Morreu nas sinapses. Vive agora no caos. Dadá agora é universal. Passaram guerras. Passaram pontes. Agora é virtual. Nos olhos de quem vê, telas e mais telas. Música. Ecos. Raves.

Laptops no cerrado. Celulares. Ar puro. Cachoeiras. Caixas de som. Malabares. Noite. Sofás. Conexão Uno. Índia, África, celtas, índios, daime. Algodão e plástico. Cyborgs.

A cidade plantada. Os escritórios ocos e as saias. Os post its. As filas, os quilos. Os fins de semana. As danças, as drogas. Os gritos silenciosos. As segundas e as terças. As reuniões, os aumentos. Os públicos-alvo. As vontades, os desprezos. Gargantas ditam relatórios estruturados.

Os viadutos, o frio. As favelas e os semáforos. Os roubos, os blindados. As praças sujas, os condomínios. Os shoppings. Os pés descalços, os vidros estilhaçados. Os bêbados, a raiva e a dor. A música no rádio. A propaganda, o trânsito e o trânsito.

A internet, as listas, os blogs, os chatts, os icqs. Os bobos, os espertos, as brigas. Os links, os silêncios. Os aeroportos cheios. Os quadros expostos. Os museus e os patrocínios. Os textos, os vazios e as visitas.

Antes que seja tarde, antes do fim da noite, é preciso o grito individual. Libertador e conectado. Côncavo. Partindo do chão e gritando pra cima, buscando links, explicações, retornos. Antes do amanhecer, o cybermonge gravará os sons do mundo. A arte significará.

Os artistas continuarão suas buscas, seus feitos. Auxiliarão na explicação significante. E para cada quadro, um espectador convicto.

Para cada música um iluminado. Cada dança uma exaltação. Cada festa, um solstício. Para que todos os links caóticos comprovem o único. E que a energia universal alimente e despegue. Que as sinapses fortaleçam as cordas. Que as preces sejam música. Que as pedras sejam deuses, as árvores anjos, os prédios belos e os quadros brancos.